26 de ago. de 2009

Manifesto Jornalístico por Leandro Fortes

Uni-vos!

Não tem mais "barriga" nos jornais brasileiros, ninguém é sequer advertido quando faz uma cagada. Só pode ser. Ou é má fé explícita. Essa matéria recente sobre Tião Viana, na Folha de S.Paulo, tirada do nada, é uma investigação jornalística enviesada, usada para encobrir uma óbvia encomenda editorial. A assessoria do senador já havia informado à repórter sobre o fato de o imóvel estar no nome da mulher dele. Mas aí aparecem os tais "especialistas" convocados, sistematicamente, para dar suporte às chifradas jornalísticas dessa que ainda se intitula "grande imprensa".

 Olhem o trecho da chamada do portal UOL, do qual sou assinante, e, por isso, cobro duplamente:

 "A assessoria do senador alegou que o terreno não foi declarado à Justiça Eleitoral porque pertencia à sua mulher, Marlúcia Cândida Viana. Mas, como o senador é casado em regime de comunhão total de bens, o imóvel pertence aos dois, segundo tributaristas ouvidos pela Folha."

O que significa isso? A interpretação ocasional de tributaristas como mecanismo para se montar um escândalo! Não nutro nenhuma simpatia pelo senador Tião Viana, tão novo e já deslumbrado com a chaga do patrimonialismo, a ponto de ter dado à filha, em viagem de férias ao México, um celular do Senado para que ela gastasse à vontade. Coisa, aliás, que ela levou a sério: a conta foi de 14 mil reais, só ressarcidos aos cofres públicos porque a mordomia foi descoberta. Isso, no entanto, não justifica o exercício de um certo tipo, este sim, escandaloso, de jornalismo, cada vez mais difundido como normal e corriqueiro. E é coisa diária, diuturna, que despreza a inteligência alheia, o poder da internet, a capacidade de reação dos leitores e dos jornalistas, estes, culpados em última instância.

A canalha é de jornalistas, não de patrões, é preciso que se diga. Quem faz o trabalho sujo nas redações não são os donos dos meios de comunicação, são os jornalistas. O problema é que as redações, hoje, têm gente demais disponível para fazer qualquer coisa. Vive-se a primazia da má fé e louva-se a inversão dos valores como condição primordial à sobrevivência dentro do mercado. Não é verdade. É possível ser jornalista e trabalhar em qualquer lugar sem se submeter ao mau-caratismo. Arriscado, mas possível.

O pior é que nós, jornalistas, temos uma arma institucional com alto potencial de marketing corporativo, a cláusula de consciência do Código de Ética, mas a coisa virou letra fria. Tinha que ter uma campanha dos sindicatos e da Fenaj, dentro das redações, com o slogan "Isso eu não faço!". Para o jornalista novo, o foca, o repórter que está angustiado se sentir apoiado pela categoria. Para dizer, sem medo: isso eu não faço porque é ilegal, é imoral, é desrespeitoso, é injusto, é antijornalístico, enfim.

A internet abriu uma perspectiva sem limites para se fazer alguma coisa de concreto, além de expor esse estado de coisas na blogosfera, que já é uma coisa sensacional. Eu queria muito que todos nós, jornalistas do Brasil, pensássemos na possibilidade de criar um blog coletivo, jornalístico, independente, com receita publicitária capaz de fazer as coisas funcionarem. Para se posicionar acima dessas figuras que aí estão, cheias de cargos, títulos honoríficos e salários polpudos, mas incapazes (ou capazes até demais) de entender o valor agregado da blogosfera e o potencial crítico – e realmente jornalístico – do mundo virtual.

As grandes estruturas de comunicação do Brasil têm dinheiro, crédito, pessoal e equipamento, mas, apesar de toda essa vantagem, estão aprisionadas por compromissos políticos e econômicos cada vez mais restritos. Ficam assustadíssimas, contudo, com a capacidade que a internet tem para tornar explícita essa relação e, mais ainda, colocar a nu o mundinho autista e auto-referencial no qual estão encapsuladas. Um mundo onde repórteres e colunistas escrevem uns para os outros, se auto elogiam e compartilham vaidades ensaiadas, numa tentativa patética de se parecer com quem lhes paga o salário. O resultado disso é um descolamento absoluto da realidade social, na qual se inserem de forma superficial e, por isso mesmo, descompromissada, como se fazer jornalismo fosse, como quer o STF, tarefa para qualquer um.

A Sociedade Americana de Revistas dos Estados Unidos calculou, no ano passado, que criar uma revista de papel e lança-la nacionalmente custa cerca de 15 milhões de dólares por mês. Uma, na web, sai por 100 mil dólares. Essa relação não deve ser muito diferente no Brasil. Talvez seja até mais barato. Entre 1976 e 1983, jornalistas do Rio Grande do Sul, jogados no desemprego por se posicionarem contra a ditadura militar, fundaram e tocaram o Coojornal, uma experiência jornalística corajosa e altamente profissional, baseada no cooperativismo. Talvez seja a hora de pensarmos em algo semelhante, antes que só restem maus exemplos – embora, dizia Santo Agostinho, sejam esses os melhores exemplos para quem se disponha a aprender, verdadeiramente,  a diferença entre o bem e o mal.

Fonte: http://brasiliaeuvi.wordpress.com/2009/08/25/180/#comment-1083

21 de ago. de 2009

Teach Yourself Programming in Ten Years by Peter Novig

Obs: Este texto tem tradução em português no link: http://pihisall.wordpress.com/2007/03/15/aprenda-a-programar-em-dez-anos/

Como o jornalismo também é uma linguagem o texto se torna instrutivo.

Why is everyone in such a rush?

Walk into any bookstore, and you'll see how to Teach Yourself Java in 7 Days alongside endless variations offering to teach Visual Basic, Windows, the Internet, and so on in a few days or hours. I did the following power search atAmazon.com:
      pubdate: after 1992 and title: days and       (title: learn or title: teach yourself)
and got back 248 hits. The first 78 were computer books (number 79 was Learn Bengali in 30 days). I replaced "days" with "hours" and got remarkably similar results: 253 more books, with 77 computer books followed by Teach Yourself Grammar and Style in 24 Hours at number 78. Out of the top 200 total, 96% were computer books.

The conclusion is that either people are in a big rush to learn about computers, or that computers are somehow fabulously easier to learn than anything else. There are no books on how to learn Beethoven, or Quantum Physics, or even Dog Grooming in a few days. Felleisen et al. give a nod to this trend in their book How to Design Programs, when they say "Bad programming is easy. Idiots can learn it in 21 days, even if they are dummies.

Let's analyze what a title like Learn C++ in Three Days could mean:

  • Learn: In 3 days you won't have time to write several significant programs, and learn from your successes and failures with them. You won't have time to work with an experienced programmer and understand what it is like to live in a C++ environment. In short, you won't have time to learn much. So the book can only be talking about a superficial familiarity, not a deep understanding. As Alexander Pope said, a little learning is a dangerous thing.

  • C++: In 3 days you might be able to learn some of the syntax of C++ (if you already know another language), but you couldn't learn much about how to use the language. In short, if you were, say, a Basic programmer, you could learn to write programs in the style of Basic using C++ syntax, but you couldn't learn what C++ is actually good (and bad) for. So what's the point? Alan Perlis once said: "A language that doesn't affect the way you think about programming, is not worth knowing". One possible point is that you have to learn a tiny bit of C++ (or more likely, something like JavaScript or Flash's Flex) because you need to interface with an existing tool to accomplish a specific task. But then you're not learning how to program; you're learning to accomplish that task.

  • in Three Days: Unfortunately, this is not enough, as the next section shows.

Teach Yourself Programming in Ten Years

Researchers (Bloom (1985)Bryan & Harter (1899)Hayes (1989)Simmon & Chase (1973)) have shown it takes about ten years to develop expertise in any of a wide variety of areas, including chess playing, music composition, telegraph operation, painting, piano playing, swimming, tennis, and research in neuropsychology and topology. The key is deliberativepractice: not just doing it again and again, but challenging yourself with a task that is just beyond your current ability, trying it, analyzing your performance while and after doing it, and correcting any mistakes. Then repeat. And repeat again. There appear to be no real shortcuts: even Mozart, who was a musical prodigy at age 4, took 13 more years before he began to produce world-class music. In another genre, the Beatles seemed to burst onto the scene with a string of #1 hits and an appearance on the Ed Sullivan show in 1964. But they had been playing small clubs in Liverpool and Hamburg since 1957, and while they had mass appeal early on, their first great critical success, Sgt. Peppers, was released in 1967. Malcolm Gladwell reports that a study of students at the Berlin Academy of Music compared the top, middle, and bottom third of the class and asked them how much they had practiced:
Everyone, from all three groups, started playing at roughly the same time - around the age of five. In those first few years, everyone practised roughly the same amount - about two or three hours a week. But around the age of eight real differences started to emerge. The students who would end up as the best in their class began to practise more than everyone else: six hours a week by age nine, eight by age 12, 16 a week by age 14, and up and up, until by the age of 20 they were practising well over 30 hours a week. By the age of 20, the elite performers had all totalled 10,000 hours of practice over the course of their lives. The merely good students had totalled, by contrast, 8,000 hours, and the future music teachers just over 4,000 hours.

So it may be that 10,000 hours, not 10 years, is the magic number. Samuel Johnson (1709-1784) thought it took longer: "Excellence in any department can be attained only by the labor of a lifetime; it is not to be purchased at a lesser price." And Chaucer (1340-1400) complained "the lyf so short, the craft so long to lerne." Hippocrates (c. 400BC) is known for the excerpt "ars longa, vita brevis", which is part of the longer quotation "Ars longa, vita brevis, occasio praeceps, experimentum periculosum, iudicium difficile", which in English renders as "Life is short, [the] craft long, opportunity fleeting, experiment treacherous, judgment difficult." Although in Latin, ars can mean either art or craft, in the original Greek the word "techne" can only mean "skill", not "art".

Here's my recipe for programming success:

  • Get interested in programming, and do some because it is fun. Make sure that it keeps being enough fun so that you will be willing to put in ten years.

  • Talk to other programmers; read other programs. This is more important than any book or training course.

  • Program. The best kind of learning is learning by doing. To put it more technically, "the maximal level of performance for individuals in a given domain is not attained automatically as a function of extended experience, but the level of performance can be increased even by highly experienced individuals as a result of deliberate efforts to improve." (p. 366) and "the most effective learning requires a well-defined task with an appropriate difficulty level for the particular individual, informative feedback, and opportunities for repetition and corrections of errors." (p. 20-21) The bookCognition in Practice: Mind, Mathematics, and Culture in Everyday Life is an interesting reference for this viewpoint.

  • If you want, put in four years at a college (or more at a graduate school). This will give you access to some jobs that require credentials, and it will give you a deeper understanding of the field, but if you don't enjoy school, you can (with some dedication) get similar experience on the job. In any case, book learning alone won't be enough. "Computer science education cannot make anybody an expert programmer any more than studying brushes and pigment can make somebody an expert painter" says Eric Raymond, author of The New Hacker's Dictionary. One of the best programmers I ever hired had only a High School degree; he's produced a lot of great software, has his own news group, and made enough in stock options to buy his own nightclub.
  • Work on projects with other programmers. Be the best programmer on some projects; be the worst on some others. When you're the best, you get to test your abilities to lead a project, and to inspire others with your vision. When you're the worst, you learn what the masters do, and you learn what they don't like to do (because they make you do it for them).

  • Work on projects after other programmers. Be involved in understanding a program written by someone else. See what it takes to understand and fix it when the original programmers are not around. Think about how to design your programs to make it easier for those who will maintain it after you.

  • Learn at least a half dozen programming languages. Include one language that supports class abstractions (like Java or C++), one that supports functional abstraction (like Lisp or ML), one that supports syntactic abstraction (like Lisp), one that supports declarative specifications (like Prolog or C++ templates), one that supports coroutines (like Icon or Scheme), and one that supports parallelism (like Sisal).

  • Remember that there is a "computer" in "computer science". Know how long it takes your computer to execute an instruction, fetch a word from memory (with and without a cache miss), read consecutive words from disk, and seek to a new location on disk. (Answers here.)

  • Get involved in a language standardization effort. It could be the ANSI C++ committee, or it could be deciding if your local coding style will have 2 or 4 space indentation levels. Either way, you learn about what other people like in a language, how deeply they feel so, and perhaps even a little about why they feel so.

  • Have the good sense to get off the language standardization effort as quickly as possible.
With all that in mind, its questionable how far you can get just by book learning. Before my first child was born, I read all theHow To books, and still felt like a clueless novice. 30 Months later, when my second child was due, did I go back to the books for a refresher? No. Instead, I relied on my personal experience, which turned out to be far more useful and reassuring to me than the thousands of pages written by experts.

Fred Brooks, in his essay No Silver Bullet identified a three-part plan for finding great software designers:

  1. Systematically identify top designers as early as possible.

  2. Assign a career mentor to be responsible for the development of the prospect and carefully keep a career file.

  3. Provide opportunities for growing designers to interact and stimulate each other.

This assumes that some people already have the qualities necessary for being a great designer; the job is to properly coax them along. Alan Perlis put it more succinctly: "Everyone can be taught to sculpt: Michelangelo would have had to be taught how not to. So it is with the great programmers".

So go ahead and buy that Java book; you'll probably get some use out of it. But you won't change your life, or your real overall expertise as a programmer in 24 hours, days, or even months.


References

Bloom, Benjamin (ed.) Developing Talent in Young People, Ballantine, 1985.

Brooks, Fred, No Silver Bullets, IEEE Computer, vol. 20, no. 4, 1987, p. 10-19.

Bryan, W.L. & Harter, N. "Studies on the telegraphic language: The acquisition of a hierarchy of habits. Psychology Review, 1899, 8, 345-375

Hayes, John R., Complete Problem Solver Lawrence Erlbaum, 1989.

Chase, William G. & Simon, Herbert A. "Perception in Chess" Cognitive Psychology, 1973, 4, 55-81.

Lave, Jean, Cognition in Practice: Mind, Mathematics, and Culture in Everyday Life, Cambridge University Press, 1988.


Answers

Approximate timing for various operations on a typical 1GHz PC in 2001:

execute single instruction1 nanosec = (1/1,000,000,000) sec
fetch word from L1 cache memory2 nanosec
fetch word from main memory10 nanosec
fetch word from consecutive disk location200 nanosec
fetch word from new disk location (seek)8,000,000 nanosec = 8 millisec


Appendix: Language Choice

Several people have asked what programming language they should learn first. There is no one answer, but consider these points:

  • Use your friends. When asked "what operating system should I use, Windows, Unix, or Mac?", my answer is usually: "use whatever your friends use." The advantage you get from learning from your friends will offset any intrinsic difference between OS, or between programming languages. Also consider your future friends: the community of programmers that you will be a part of if you continue. Does your chosen language have a large growing community or a small dying one? Are there books, web sites, and online forums to get answers from? Do you like the people in those forums?
  • Keep it simple. Programming languages such as C++ and Java are designed for professional development by large teams of experienced programmers who are concerned about the run-time efficiency of their code. As a result, these languages have complicated parts designed for these circumstances. You're concerned with learning to program. You don't need that complication. You want a language that was designed to be easy to learn and remember by a single new programmer.
  • Play. Which way would you rather learn to play the piano: the normal, interactive way, in which you hear each note as soon as you hit a key, or "batch" mode, in which you only hear the notes after you finish a whole song? Clearly, interactive mode makes learning easier for the piano, and also for programming. Insist on a language with an interactive mode and use it.
Given these criteria, my recommendations for a first programming language would be Python or Scheme. But your circumstances may vary, and there are other good choices. If your age is a single-digit, you might prefer Alice or Squeak(older learners might also enjoy these). The important thing is that you choose and get started.

Appendix: Books and Other Resources

Several people have asked what books and web pages they should learn from. I repeat that "book learning alone won't be enough" but I can recommend the following:


Notes

T. Capey points out that the Complete Problem Solver page on Amazon now has the "Teach Yourself Bengali in 21 days" and "Teach Yourself Grammar and Style" books under the "Customers who shopped for this item also shopped for these items" section. I guess that a large portion of the people who look at that book are coming from this page. Thanks to Ross Cohen for help with Hippocrates

24 de jul. de 2009

La vita è adesso

La vita è adesso,
Nel vecchio albergo
Della terra e ognuno in una
Stanza e in storia di mattini piú legerri e cieli
Smarginati di speranza e di silenzi da ascoltare
E ti sorprenderai a cantare ma,
Non sai perché

La vita è adesso
Nei pomeriggi appena freschi
Che ti viene sonno e le campane
Girano le nuvole e piove
Sui capelli e sopra i tavolini
Dei caffè all'aperto
E ti domandi incerto chi sei tu

Sei tu, sei tu, sei tu,

Sei tu che spingi avanti il cuore, ed il lavoro duro
Si essere uomo e non sapere, cosa sarà il futuro
Sei tu, nel tempo che ci fa più grandi e soli in mezzo al mondo
Con l'ansia di cercare insieme, un bene più profondo

E un altro che ti dia respiro e che si curvi verso te
Con una attesa di volersi di più senza capire cos'è
E tu che mi ricambi gli occhi in questo instante immenso
Sopra il rumore della gente, dimmi se questo ha un senso

La vita è adesso
Nell'aria tenera
Di un dopocena e musi
Di bambini contro i vetri e i prati che si lisciano
Come gattini e stelle che si appicciano ai lampioni millioni
Mentre ti chiederai dove sei tu,

Sei tu, sei tu, sei tu

Sei tu che porterai il tuo amore per cento e mille strade
Perchè non c'è mai fine al viaggio anche se un sogno cade
Sei tu che hai un vento nuovo tra le braccia
Mentre mi vieni incontro
E impanerai che per morire ti basterà un tramonto

In una gioia che fa male di più della malinconia
E in qualunque sera ti troverai non ti buttare via
E non lasciare andare un giorno per ritovar te stesso
Figlio di un cielo così bello perché la vita è adess

4 de jul. de 2009

Quem quer passar além do Bojador tem que passar além da dor

Mar Português__Fernando Pessoa

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da Dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

29 de jun. de 2009

O doutor que desqualificou os jornalistas por Gerson Moreira Lima

Fonte: http://www.boqnews.com/coluna.php?cod=2145

Só ocupo esse espaço semanalmente porque existo. E se existo, devo a algumas pessoas,
entre elas minha avó Calixta, espanhola da gema. Foi por intermédio de suas mãos que cheguei ao mundo, em um quarto arejado de um sobrado na Rua João Guerra, 330, em Santos.

Agradeço até hoje sua perícia de parteira. Habilidade, aliás, elogiada pelo médico que visitou mamãe, posteriormente:“Dona Calixta se saiu melhor do que muito obstetra”,ouvi de minha própria mãe anos mais tarde.

Também o juiz do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, surgiu no STF pelas mãos
de alguém. Claro, não foi de dona Calixta, mas sim de uma indicação do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso.

Pois foi exatamente o doutor Gilmar quem, como relator, praticamente definiu que, a partir de agora, o diploma de Jornalismo deixa de existir como pré-requisito para aqueles que pretendem exercer a profissão.

Em um arroubo de argumentação, equiparou o Jornalismo à arte da Culinária. Bem, entendo que há pessoas extremamente competentes em todos os segmentos e, é lógico,
também na cozinha. Mas considero que todas essas pessoas, se tiverem a oportunidade de frequentar um bom curso na área, terão condição de se tornar melhores profissionais ainda.

Claro, pode até haver autodidatas, e há. Alguns que até demonstrem desempenho melhor
do que formados recém saídos dos bancos universitários. Mas é óbvio - só mesmo
quem esbarra na miopia não entende - que, por mais talento tenha o sujeito, um bom curso no qual se discutam os dilemas éticos e mesmo técnicos das profissões será de fundamental relevância para melhores profissionais no mundo.

Fico aqui imaginando minha avó parteira se tivesse a oportunidade de frequentar uma escola de Medicina. Provavelmente teria alcançado fama na área médica. Da mesma forma, pessoas que desde a infância apresentam sensos crítico e ético apurados, amplo repertório cultural e facilidade de expressão parecem me ter futuro assegurado no Jornalismo. Mas aí tenho que ouvir, ver e ler baboseiras de que Medicina e Jornalismo são diferentes. Um profissional da área branca mata, o das letras não. Ignorância.

A Grande Reportagem interpretativa tem historicamente suas raízes no crack da Bolsa
dos EUA, em 1929. A crítica na época foi a de que o Jornalismo precisaria mudar para dar mais contexto para seus leitores. Explicar aos investidores que a Bolsa sobe, mas também cai. Ocorre que o Jornalismo de então não cumpriu seu dever. Resultado: desespero dos aplicadores. Consequência imediata: diversos suicídios nos EUA.

A verdade é que, tanto quanto qualquer profissão, o Jornalismo mal feito traz consequências desastrosas. Por isso, precisa, cada vez mais, de base científica para ser praticado.

Minha avó Calixta, se estivesse viva, tenho certeza, pensaria assim. Pena que o ministro do STF Gilmar Mendes não pense. Tanto que em uma simples canetada, com o apoio de outros juízes, jogou todos os jornalistas brasileiros dentro de uma cozinha. Acendeu o fogo e, debaixo de sua toga, parece torcer para que uma das profissões mais importantes do Planeta vire pó.

Aliás, está na Bíblia: do pó vieste e ao pó retornarás. Até lá doutor Gilmar!!!

Em tempo, prometo falar de futebol na semana que vem.

Obs: reproduzido do jornal Boqueirão News – A mudança no título do artigo foi feita pelo autor do blog visando especificar o tema.

24 de jun. de 2009

Primeira Página por Ailton Medeiros

Leitor compulsivo, entrei à madrugada lendo "Os Melhores Jornais do
Mundo", do jornalista Matias M. Molina.

O livro é um catatau de 675 páginas.

São perfis de 17 dos principais jornais do mundo. Dois deles foram
fundados no século XVIII, onze no século XIX e quatro no século XX.

O espanhol "El País, fundado em 1976, é o caçula da turma. Os mais
antigos são os ingleses "The Times" (1785) e "The Guardian" (1821).

Estão lá o alemão "Neue Zurcher Zeitung", os americanos "New York
Times", "The Washington Post" e "Los Angeles Times", os franceses "Le
Monde" e "Le Figaro", o italiano "Corriere della Sera", os japoneses
"Asahi Shimbun" e "Nihon Keizai Shimbun", entre outros.

Quais os critérios para se avaliar uma publicação?

Molina cita a revista "Time" que atribui como característica de um
jornal de qualidade sua preocupação com a comunidade.
"Um bom jornal diário tem de servir de consciência, de guardião e de
guia dessa comunidade", escreve.

"Também precisa ter uma curiosidade universal e fazer com que seus
leitores participem dela". Ou, nas palavras do dramaturgo americano
Arthur Miller, um bom jornal é uma nação falando para si mesma.

Molina conta histórias que engrandecem algumas publicações em
detrimento de outras.
Uma delas:

Quando Harrison Salisbury, do "New York Times", escreveu de Hanói que
a aviação americana tinha atingido populações civis, o "Washington
Post" saiu em defesa do bombardeio e acusou seu concorrente de estar à
serviço de Ho Chi Min, o líder do Vietnã do Norte.

Dias depois, as informações de Salisbury foram confirmadas pelo
próprio governo e também pelo "Post" que esqueceu de pedir desculpas
pelas relações incestuosas com o goveno Lyndo Johnson.

Katharine Graham, a toda poderosa dona do "Post", era defensora da
manutenção das tropas americanas no Vietnã. Achava, como a maioria da
imprensa da época, que a fronteira dos Estados Unidos estava no rio
Saigon.

Molina também conta episódios nada edificantes para a história do "New
York Times".

Nos anos de chumbo da era macartista, na década de 50, o jornal
demitiu dois jornalistas por se recusarem a depor perante o comitê do
Senado.

Mas vale ressaltar que o "Times" não apenas recusou transferir do
Vietnã o correspondente David Halberstam a pedido de John Kennedy,
como também cancelou suas férias para que o governo não achasse que o
jornal estava cedendo à pressão do presidente. (Halberstam ganharia
depois o Prêmio Pulitzer com suas reportagens sobre o conflito no
sudeste asiático).

Os republicanos, nesse terreno, não são muito diferentes dos democratas.

Molina relata uma reunião de Bush com Arthur Ochs Sulzberger Jr.,
"publisher" do "Times", na Casa Branca, em dezembro de 2005.
Bush não queria que o jornal publicasse que a Agência de Segurança
Nacional tinha instalado escutas clandestinas no país sem autorização
da Justiça.

A notícia saiu uma semana depois e teve ampla repercussão internacional.

Como resultado, o Senado não aprovou a prorrogação do Patriot Act e
Bush acusou o "New York Times" de "traidor" e "desleal".

Recheado de informações, "Os Melhores Jornais do Mundo" é leitura obrigatória.

Vamos, leitor hipócrita, tire a bunda da areia.

A vida não é só praia, cerveja e sol.

fonte: http://www.ailtonmedeiros.com.br/primeira-pagina-3/2008/01/17/

19 de jun. de 2009

O erro de Gilmar por João Campos (advogado especialista em direito do consumidor)

Você já viu uma ilha de edição? Você sabe como fazer uma matéria sobre menores infratores, quais os limites, as cautelas?  Um texto sobre portador de deficiência física? Qual é o jargão do jornalismo econômico, do jornalismo científico, do texto político? Como tratar adequadamente uma matéria sobre um cadáver ou um acidente?


Quando um box (texto menor que o principal, que traz informações extras etc. Ele se diferencia da retranca por estar dentro de uma "caixa", em negrito) é necessário na sua reportagem principal?  Como saber fazer o relato de um fato, apontando todos os lados envolvidos. O que são os critérios de proximidade, relevância e atualidade de uma matéria? O que é uma notícia quente ou fatual, o que vem a ser notícia fria ou de "validade expandida"?


Você sabe o que é um "lead" ou consegue escrever um título adequado à matéria, ou seja, que não revele tudo, que atraia a atenção do leitor para o texto, que caiba em duas, três, quatro colunas?


Por que o título costuma ser na voz ativa? Quando deve estar no tempo passado ou refletir o presente?


 


O que é "chapéu" (geralmente uma ou duas palavras, colocadas acima do título, que identificam o assunto geral tratado por aquela notícia) ou "olho" (frase colocada em destaque na matéria, que oferece uma informação a mais sobre o assunto).


 


Qual é o ritual para uma entrevista coletiva, o que é pauta, réplica, direito de resposta ou sigilo da fonte? Ou pior, como checar as fontes e apurar a verdade que vai para as páginas do jornal? Ou linha fina, créditos de repórter, de fotos ou ilustrações, retranca e selo?


Tudo isso você terá de saber no Google depois que o Ministro Gilmar Mendes, assinando o maior equívoco de todos os tempos cometido pelo Supremo Tribunal Federal (afinal, nove ministros o acompanharam no erro), extinguiu a obrigatoriedade da formação acadêmica do jornalista.


Batendo uma vez no prego, outra na estopa, o Ministro disse que não extinguia os cursos superiores de jornalismo, o que é verdade. A Corte apenas disse que o diploma não é obrigatório para o exercício da profissão.


Na verdade, não há como se exercer a profissão sem a formação acadêmica, sem uma faculdade, pois são tantos os detalhes técnicos, as facetas, os equipamentos, as exigências do jornalismo moderno, o tratamento da cor em uma foto, a localização precisa de um texto na página que um pretendente a jornalista, a bem da verdade, nunca vai chegar lá.


Ou seja, o Supremo errou feio, decidiu contra uma categoria inteira que acreditou na prevalência da formação sobre a aventura e não chegou a lugar algum. Os grandes jornais e as maiores emissoras de TV vão preferir o jornalista formado. Não por uma questão de lei, de jurisprudência ou de reserva de mercado, mas de qualidade na prestação de um dos bens mais preciosos da humanidade: a informação.